quinta-feira, 31 de maio de 2018

Entre o século XVII e XVIII


O século XVII (com que termina o estudo da disciplina neste ano) foi um período de crise económica, social e política, de certo modo semelhante à que se tinha vivido no século XIV.  Em ambas se verificou de um modo distinto uma libertação face a Castela e a Espanha.  Por outro lado, em ambas se verificou a transferência de poder entre grupos. Na primeira da alta nobreza para cavaleiros e burgueses e a segunda de governantes estrangeiros para um grupo de fidalgos que se queriam libertar do poder castelhano. 

As duas têm no entanto uma grande diferença. A crise do século XIV concedeu oportunidades a grupos alargados da população, a do século XVII limitou essas oportunidades a um grupo reduzido da população. Só existia liberdade de comércio no reino e no Brasil. Neste território diferentes elementos dos vários grupos sociais podiam ter acesso a diferentes oportunidades, mas os lucros eram muito limitados a uma minoria. A crise do século XVII trouxe transformações, mas de sentido diferente às que tinham ocorrido no século XIV.

O quadro social e económico que saiu da crise do século XVII não pode ser caracterizado como de progresso económico. A administração feita pela Coroa era pouco eficaz e estava dominada por interesses locais, sobretudo associados aos interesses e poder de fidalgos e de membros locais do clero. A nobreza tinha uma atitude de grande consumo de produtos de luxo (alimentação, vestuário) e vivia segundo uma ideia não produtiva para o País. O poder da Coroa e do Estado diminuíram e só iriam melhorar no fim do século XVIII.

O século XVIII trará algumas alterações, onde encontramos uma nova forma de arte, o barroco e a chegada do ouro e dos diamantes brasileiros. Esta chegada fez criar um conjunto de hábitos improdutivos no País. Foram construídas muitas igrejas ricamente decoradas, muitos palácios de construção sumptuosa e eram dados muitos concertos na corte e nos solares da alta nobreza. Criaram-se academias, bibliotecas, mas tudo isso era para exclusivo benefício de uma  minoria ligada à nobreza e algum clero. As relações com o exterior por parte da Coroa mantinham uma ideia de luxo que era contraditória com os modos de vida de grande parte da população.

O século XVIII, na sua 2ª metade observaria algumas alterações que mudaram um pouco este quadro. Os estrangeirados (alunos que estudavam no estrangeiro e que regressaram) que mostraram a importância de reduzir as ideia de aparência e de luxo, que esclareceram da necessidade de desenvolver as actividades económicas e de acolher a participação de todos levariam a algumas mudanças importantes. Nascia o despotismo esclarecido, no qual uma figura terá um papel determinante, o Marquês de Pombal.

Só no século XIX com as Invasões Francesas e sobretudo com as ideias da Revolução Francesa e com algum triunfo da burguesia se deram alterações capazes de transformar o País. As alterações foram feitas à base de muito confronto e contradição entre diferentes elementos. O preço pago pela crise do século XVII e da União Ibérica foi muito alto e ficaria por muitas décadas. São essas consequências ainda presentes nos séculos XVIII e XIX que serão tratadas no estudo da desta disciplina no próximo ano lectivo, assim como aquilo que o século XX soube construir.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A expansão marítima


Portugal foi no XII uma monarquia essencialmente guerreira para no século seguinte um reino feudal. O século XIII foi um século de afirmação do poder real no País e de construção de uma ideia de comunidade entre diferentes grupos e elementos da sociedade.

O século XIV foi um período de grande instabilidade e de transição entre o que tinha sido antes e o que será a partir do século XV. Nesse século o País defrontou-se com uma crise social, económica e política grave. Foram imensas as perturbações criadas por acontecimentos como a peste negra, as lutas sociais e as guerras perdidas com Castela. Esse século foi um período permanente de conflitos. O rei e a Coroa não conseguia manter a paz, nem aplicar a justiça e as condições de vida do povo eram muito más, o que levou a revoltas constantes. 

No século XIII ocorreu uma crise que alguns historiadores designam com o nome de revolução pelas alterações profundas que proporcionou. Com essa revolução a linha sucessória directa é interrompida, nasce uma nova dinastia conduzida pelo Mestre de Avis, futuro D. João I. Vencidos os Castelhanos e aclamado o rei nas cortes de Coimbra de 1385, aquele tentou excluir qualquer favoritismo a algum grupo social e procurou favoreceu o comércio e as actividades económicas. Aos mais poderosos foram retirados alguns privilégios e novos elementos aproximaram-se mais intensamente do comércio, como fidalgos e burgueses. Este desenvolvimento foi essencial para a expansão marítima dos séculos XV e XVI.

Nos séculos XV e XVI a Coroa interessou-se pela expansão marítima e monopolizou as principais actividades comerciais, sobretudo as que tinham que ver com o Oriente. A nobreza também participou em muitas acções de apoio aos comerciantes e à sua actividade. Muitos filhos da nobreza eram enviados para os novos territórios no sentido de ganharem fortuna. Houve no País a atracção pelos novos territórios, quer no cultivo dos novos espaços, quer na possibilidade de fazer fortuna no Oriente, quer na possibilidade de fazer comércio, ou combater nos exércitos dos vice-reis. A expansão deu oportunidades aos diferentes grupos sociais e teve a participação de todos.

Foi da crise do século XIV que se abriu caminho para a criação de um País novo, em contacto com o mundo inteiro e que teve a capacidade de ir encontrar recursos a regiões muito distantes e de encontrar povos de costumes e hábitos diferentes. A afirmação da dinastia de Avis com a a chamada ínclita geração (filhos de D. João I), ao combater a excessiva acumulação do poder nas mãos dos grupos privilegiados, ao dar oportunidades a pessoas de diferentes condições económicas e sociais, fizeram criar a possibilidade de empreendimento da grande maioria da população do País.

A expansão marítima dos séculos XV e XVI permitiu ao País sair de uma posição de periferia e abrir-se ao mundo, dando a conhecer espaços que eram conhecidos. Portugal tornou-se assim um ponto de ligação entre diferentes continentes, pois deu a conhecer espaços, plantas, produtos, conhecimentos, costumes que eram desconhecidos aos europeus. A vida moderna alterou-se profundamente.

Essa alteração deu-se pela introdução de alimentos como o milho, a batata, o café, ou tabaco, ou mesmo das especiarias. Mas houve lago mais importante que fará grandes transformações na vida europeia. Foram os contactos com diferentes povos e com o seu pensamento que permitiu alterar o modo de pensar o mundo e pôs em dúvida princípios que eram considerados definitivos. Foi a expansão que permitiu olhar a realidade de um outro modo.

Este contacto de Portugal com o mundo trouxe igualmente prosperidade económica para si próprio. Houve a necessidade de melhorar a administração do país, de conhecer melhor os seus recursos, de modo a que a participação na aventura marítima  pudesse ter melhores resultados. Pela primeira vez fez-se a contagem da população, assim como a descrição geográfica das diferentes regiões.  A Coroa interessou-se pela cultura, pelas manifestações artísticas e pelo papel da Universidade, assim como na construção de monumentos. A própria língua fixou neste período as suas principais regras. Desta época ficaria essa obra sobre o próprio País e a sua história, Os Lusíadas.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Objetivos - Ficha nº 5

1. Descrever o conhecimento do mundo que os europeus tinham do mundo no século XV;
2. Explicar o aparecimento de lendas e mitos sobre o mundo desconhecido;
3. Conhecer as motivações económicas que justificaram a expansão marítima portuguesa do séc. XV;
4. Referir a motivação de cada grupo social para participar na expansão marítima;
5. Justificar a prioridade portuguesa na expansão;
6. Reconhecer o papel essencial do Infante D. Henrique na fase inicial da expansão;
7. Conhecer o ano e o local que inicia a expansão marítima;
8. Descrever as principais descobertas e conquistas (D. João I, D. Afonso V, D. João II, D. Manuel I);
9. Compreender os diferentes rumos da expansão marítima (conquista/descoberta/exploração);
10. Explicar em que consistiu o Tratado de Tordesilhas;
11. Distinguir caravela de nau;
12. Explicar a "descoberta do Brasil".

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A aventura marítima (VII)


" Ocupa a Ribeira das Naus um espaço vastíssimo, fechado em parte pelos muros da cidade e em parte pelo edifício do Paço real, e estende-se até ao mar. 

Constrói-se ali todo o género de navios e especialmente essas grandes naus (...) que abriram a navegação da Índia e a conservam ainda com as suas contínuas viagens. (...) 
É admirável aqui, na verdade, a abundância de tudo o que é necessário para abastecer a armada  (...)." (1)

"De Portugal mandam jóias e pérolas orientais (...), ouro (...), especiarias, drogas, âmbar, marfim, (...), incenso, mirra, pau-da-Índia e outras coisas preciosas em grande quantidade, que delas de fornece a maior parte da Europa; as quais cousas os Portugueses conduzem das Índias Orientais a Lisboa e até cá, [Antuérpia] todos os dias. Conduzem também os aç´
ucares da ilha de S. Tomé e trazem igualmente a malagueta (...) da Costa da Guiné, (...) não esquecendo os óptimos açúcares e o vinho da Madeira (...). Mandam do reino deles bastante sal, vinho, azeite, e além disso (...) variadas frutas. Para lá [ de Portugal] manda-se prata, (...) bronze e latão, estanho, chumbo, armas (...), artilharia e outras munições de guerra; telas de ouro e prata." (2)

" D. Manuel quando comia, embora comesse depressa, nem por isso deixava de conservar com letrados que o acompanhavam sempre e sobretudo com estrangeiros (...)
Gostava muito de música e a maior parte das vezes resolvia os assuntos do Reino ao som da música. Tinha uma das melhores capelas (...) composta por cantores e tocadores que vinham de todas as partes da Europa (...)
A maior parte dos domingos e dias santos D. Manuel ia, depois de comer, ver correr cavalos e corria também (...). Quando não ia às corridas, ia passear num barco, todo embandeirado de seda, levando sempre música e algum oficial seu, com quem ia despachando.

Algumas vezes, merendava frutas, conservas e coisas de açúcar, vinho e água (...). Mandava muitas vezes correr touros (...). 
Todos os domingos e dias santos (...) dava serão às damas e cortesãos, no qual todos dançavam (...)" (3)

" Não temo de Castela / Aonde inda guerra não soa; / Mas temo-me de Lisboa, / Que, ao cheiro desta canela, / O reino despovoa.

Lisboa vimos crescer / Em povos e em grandeza / E muito se enobrecer / Em edifícios, riqueza, em armas e poder." (4)

(1) - Duarte Sande, Diário, 1584, (adaptado)
(2) - Ludovico Guiacciardini, Relação (agente comercial em Antuérpia), séc. XVI, (adaptado)
(3) - Damião de Góis, Crónicas de D. Manuel, (adaptado)
(4) - Garcia de Resende, Miscelânea, (adaptado)
Imagem: atribuído a António de Holanda, Livro de Horas do Rei D. Manuel

sábado, 28 de abril de 2018

A aventura marítima (VI)


" Pelo meio desta cidade corre outra grossa ribeira de água, a qual vem ter ao porto (...) e se reparte por quatro principais chafarizes, afora outro que sai junto do cais, donde provêm todos os navegantes e armadas (...). Tem esta cidade ao redor de si muitos pomares, jardins e hortas, de que é também servida e provida, como o é de todas as outras partes da mesma ilha e das outras ilhas." (1)

"[O Infante D. Henrique] fez povoar a Madeira por Portugueses (...); cheia de árvores, foi necessário aos que a quiseram habitar pôr-lhe fogo (...). Assim desapareceu grande parte do dito bosque (...) e embora seja montanhosa nem por isso deixa de ser fertilíssima, colhendo-se cada ano 180 000 alqueires de trigo (...).
Por ser a ilha banhada de muitas águas, o Infante fez plantar muitas canas-de-açúcar, pois a terra é muito própria pelo seu ar quente e temperado (...). Produz cera e mel (...), os seus vinhos são muito bons (...) e são em tanta quantidade que (...) sobram para exportar." (2)

"Na manhã seguinte fizemo-nos à vela, esperando achar gente (...). Apareceram algumas embarcações (...). Em cada uma das proas havia um negro de pé, com um escudo redondo no braço (...) Os nossos navios descarregaram quatro bombardas. Aterrados (...) pelo grande estrondo, deixaram cair os arcos, admirados por verem as pedras das bombardas ferir a água junto de si. (...) Depois (...) perguntámos-lhes por que nos ofendiam, sendo nós gente pacífica e vindo tratar de mercadorias (...). A sua resposta foi que tinham alguma notícia de nós, os cristãos (...), que não comprávamos os negros senão para os comer; por isto não queriam o nosso comércio por modo nenhum, porém, sim, matar todos nós (...)." (3)

"Para Pêro do Campo Tourinho poder povoar a capitania de Porto Seguro vendeu todos os seus haveres e preparou à sua custa uma frota de navios, na qual embarcou com sua mulher e filhos (...). E com bom tempo foi demandar a terra do Brasil e foi tomar porto no rio de Porto Seguro, onde desembarcou com a sua gente (...). No seu tempo instalaram-se alguns engenhos de açúcar, no que teve nos primeiros anos muito trabalho por causa da guerra que lhe fizeram os índios (...)." (4)

"Senhor:
(...) as armas que Vossa Alteza mandou, digo-vos o grande serviço que foi vosso; na Índia não haveria, antes da chegada destas armadas, mil e duzentos homens, uns em Malaca, outros em Goa e em outras fortalezas, e entre eles não havia trezentos homens armados (...).
E esta é a verdade.
(...) Porque via Malaca em vosso poder, que é fonte de especiarias e riquezas destas partes e chave de navegação do estreito, e Goa que é freio de toda a Índia e segurança de toda a navegação das naus de carga (...); e não ver gente nem armas para as segurar e conservar, e ver-vos mandar à Índia armadas, sem gente e sem armas, tirando Vossa Alteza um milhão de ouro." (5)

"Estes homens, bárbaros do Sudoeste, são comerciantes. (...) Bebem por um copo sem oferecer aos outros; comem com as mãos e não com pauzinhos como nós. Revelam os seus sentimentos com franqueza. Não compreendem o sentido dos caracteres escritos. São pessoas que passam a vida a vaguear daqui para ali, sem domicílio fixo, e trocam coisas que possuem por coisas que não têm; no fundo, é gente que não faz mal." (6)

(1) - Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra (século XVI), (adaptado)
(2) - Luís de Cadamosto, Primeira navegação, (adaptado)
(3) - Luís de Cadamosto, Primeira Viagem, (adaptado)
(4) - Gabriel Soares, Roteiro Geral, século XVI, (adaptado)
(5) - Afonso de Albuquerque, Carta a D. Manuel I, 1512, (adaptado)
(6) - Relato de Teppo Hi, escritor japonês do século XVI, (adaptado)
Imagem - Chegada dos portugueses ao Japão, século XVI, Arte Namban

sexta-feira, 27 de abril de 2018

A aventura marítima (V)


" Neste dia houvemos vista de terra. Primeiramente um grande monte muito alto e redondo; e (...) grandes arvoredos; ao monte alto o capitão pôs o nome Monte Pascoal e à terra Terra de Vera Cruz (...) 
Ali permanecemos toda aquela noite (...) e pela manhã fizemos vela e seguimos direitos à terra (...). Dali avistámos alguns homens que andavam pela praia (...). Afonso Lopes (...) meteu-se logo no batel e tomou dois daqueles homens de terra (...) Trouxe-os logo ao capitão em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa. A feição deles é serem (...) avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus (...) e um deles trazia uma espécie de cabeleira de penas amarelas (...). O capitão (...) estava sentado em uma cadeira, bem vestido com um colar de ouro mui grande (...). Um deles pôs o olho no colar como que dizendo que ali havia ouro. Também olhou para o castiçal de prata e assim mesmo acenava para terra (...). Mostravam-lhes um papagaio; tomaram-no logo na mão e acenaram para terra; (...) um carneiro; não fizeram caso; (...) uma galinha; quase tiveram medo dela."

Pêro Vaz de Caminha, Carta ao Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil, (adaptado) 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A aventura marítima (IV)


" [D. Afonso V] arrendou a exploração da costa africana por (...) cinco anos a Fernão Gomes, um cidadão honrado de Lisboa, por duzentos mil reais cada ano; com condição que em cada um destes cinco anos fosse obrigado a descobrir pela costa em diante cem léguas (...) [e] levaria de começar na Serra Leoa (...).

E o primeiro descobridor que levou este padrão foi Diogo Cão, cavaleiro de sua casa. No ano quatrocentos e oitenta e quatro, indo pela Mina (...), passado o Cabo de Santa Catarina (...), chegou a um notável rio na boca do qual, da parte sul, meteu este padrão, como quem tomava posse por parte de El-Rei de toda a costa que deixava para trás (...). Muito tempo foi nomeado este rio Padrão, e ora lhe chamam de Congo por correr por um reino assim chamado(...).

Aqui, como a gente vinha cansada e temerosa dos grandes mares que passaram, todos começavam a queixar-se e a pedir que não fossem mais adiante,porque os mantimentos se gastavam (...). Para mais já levavam uma boa novidade, a de que a terra corria para leste (...).
Bartolomeu Dias pediu então a todos que tivessem por bem correr mais dois ou três dias (...)
Partidos dali (...) houveram vista daquele grande (...) cabo encoberto por tantas centenas de anos, ao qual Bartolomeu Dias (...) por causa dos perigos (...) que passaram ao dobrá-lo, [pôs] o nome de Tormentas. El-rei, porém, deu-lhe outro nome (...), Cabo da Boa esperança, pelo qual ele prometia do descobrimento da Índia tão esperado e por tantos anos requerido."

(1) João de Barros, Décadas da Ásia, (adaptado)
Imagem: Crónica do Rei D. João II, de Rui de Pina